Ponto do marido: por que essa prática é violência obstétrica?
O que é o chamado "ponto do marido"?
A preparação para a chegada de um bebê envolve muitos momentos especiais. Escolher as primeiras roupinhas, organizar os saquinhos maternidade e deixar tudo pronto dentro da bolsa maternidade traz uma sensação de acolhimento e expectativa. No entanto, preparar-se para o parto também exige informação e consciência sobre os seus direitos e a integridade do seu corpo.
Um dos temas mais delicados, mas que precisa ser amplamente debatido, é o chamado "ponto do marido". Essa expressão popular refere-se a um procedimento cirúrgico informal realizado logo após o parto vaginal, no momento da sutura de uma episiotomia (um corte feito na região do períneo) ou de uma laceração natural. O objetivo dessa sutura adicional é estreitar a entrada da vagina, sob a justificativa de aumentar o prazer sexual do parceiro masculino nas relações futuras.
Embora pareça uma prática antiga e ultrapassada, relatos mostram que ela ainda acontece nos centros cirúrgicos e salas de parto pelo Brasil. Para além de um termo desconfortável, o ponto do marido é, hoje, classificado e combatido como uma grave forma de violência obstétrica, pois desconsidera a autonomia, a anatomia e a saúde da mulher em prol de uma suposta satisfação alheia.
Por que essa prática é considerada violência obstétrica?
A violência obstétrica se caracteriza por qualquer ato, negligência ou intervenção médica direcionada à gestante ou parturiente que seja realizada sem consentimento informado, que cause dor desnecessária ou que desrespeite sua autonomia e dignidade. O ponto do marido se enquadra perfeitamente nessa definição por diversos fatores estruturais e éticos.
Em primeiro lugar, há a completa ausência de indicação clínica. Não existe nenhum protocolo de saúde no mundo que recomende estreitar a vagina de uma mulher após o nascimento do bebê. Trata-se de uma mutilação estética e funcional sem consentimento. Muitas vezes, o procedimento é feito de forma silenciosa ou acompanhado de "piadas" e comentários constrangedores na sala de parto, o que configura também violência psicológica.
Além disso, o Código de Ética Médica brasileiro proíbe terminantemente a realização de qualquer procedimento sem a autorização explícita e consciente do paciente, exceto em casos de iminente risco de morte. Sem essa autorização, a intervenção pode ser tipificada legalmente como crime de lesão corporal e constrangimento ilegal, violando os direitos fundamentais garantidos pela legislação do país.
Os riscos e impactos físicos do procedimento na saúde da mulher
A alteração cirúrgica e desnecessária da anatomia feminina traz consequências severas para a qualidade de vida da mulher no pós-parto e a longo prazo. Longe de trazer qualquer benefício, a prática destrói a elasticidade natural da região pélvica e causa complicações físicas importantes. Conheça as principais sequelas:
- Dispareunia (dor extrema na relação sexual): O estreitamento excessivo do canal vaginal impede a penetração confortável, transformando o ato sexual em um momento de dor e sofrimento físico.
- Dificuldade de cicatrização e infecções: Pontos extras em uma região extremamente sensível e que acabou de passar pelo trauma do parto aumentam o risco de inflamações, infecções locais e abertura dos pontos.
- Lesões nervosas e perda de sensibilidade: A sutura inadequada pode atingir terminações nervosas importantes do períneo, provocando dormência crônica ou episódios de dor aguda espontânea.
- Incontinência urinária ou fecal: A alteração indesejada da musculatura do assoalho pélvico pode comprometer a sustentação dos órgãos e a função dos esfíncteres, dificultando o controle da urina e das fezes.
Caso você perceba dores persistentes, repuxamento excessivo ou ardência incomum na região perineal semanas após o parto, é fundamental procurar ajuda médica. O acompanhamento com um ginecologista de confiança ou um fisioterapeuta pélvico é essencial para avaliar a cicatrização e tratar possíveis sequelas.
A episiotomia de rotina e as recomendações oficiais
Para entender o ponto do marido, é preciso compreender a episiotomia. Trata-se do corte cirúrgico feito no períneo (área entre a vagina e o ânus) com o objetivo de facilitar a passagem do bebê. No passado, acreditava-se que esse corte protegia a musculatura pélvica, mas a ciência moderna provou o contrário.
Hoje, órgãos oficiais de saúde, como o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS), orientam de forma clara que a episiotomia não deve ser realizada de maneira rotineira. Ela deve ser uma exceção absoluta, indicada apenas em casos muito específicos e após avaliação criteriosa do obstetra no momento do parto.
Quando a episiotomia ou uma laceração natural ocorrem, a sutura necessária para reconstruir a musculatura deve apenas devolver a anatomia original da mulher ao seu estado natural. Qualquer alteração além disso, com o intuito de "apertar" a entrada vaginal, desvia completamente do papel da medicina humanizada.
O impacto emocional e psicológico na mãe
O puerpério é um período de intensa vulnerabilidade física e emocional. O foco da mulher está voltado para o cuidado com o recém-nascido, a adaptação à amamentação e a recuperação do próprio corpo. Descobrir ou sentir que seu corpo foi modificado sem sua autorização gera um impacto psicológico profundo.
Muitas mulheres relatam sentimentos de violação, perda de controle sobre o próprio corpo e profunda tristeza. A sensação de ter sido tratada como um objeto de prazer para terceiros gera traumas que podem afetar o vínculo com o parceiro, reduzir drasticamente a libido e contribuir para o desenvolvimento de quadros de depressão pós-parto e ansiedade.
O apoio emocional nessa fase é indispensável. Conversar com psicólogos perinatais e participar de grupos de apoio à maternidade ajuda a processar o ocorrido e a buscar caminhos para a recuperação da autoestima e da saúde mental.
Como se proteger usando o plano de parto
A melhor ferramenta de proteção e voz para a gestante durante o nascimento é o plano de parto. Trata-se de um documento legal e recomendado pela Organização Mundial da Saúde, onde a mulher registra por escrito todas as suas preferências, desejos e recusas para o momento do trabalho de parto e pós-parto imediato.
Assim como planejamos cada detalhe prático para a chegada do bebê — escolhendo com carinho o trocador adequado e arrumando a Mala Maternidade Amiguinho Leão Branco 48cm —, planejar as decisões médicas é um ato de cuidado essencial.
Para se proteger dessas intervenções indesejadas, inclua as seguintes diretrizes no seu plano de parto:
- Deixe explícito que não autoriza a realização de episiotomia de rotina, aceitando-a apenas em caso de necessidade clínica real e explicada previamente pela equipe.
- Insira uma cláusula clara informando que proíbe qualquer sutura reconstrutiva que altere a anatomia original da sua vagina (rejeição total ao ponto do marido).
- Exija que qualquer procedimento realizado no seu corpo durante ou após o nascimento seja comunicado e explicado detalhadamente para você e seu acompanhante antes de ser executado.
Leve o documento impresso para as consultas de pré-natal, discuta cada ponto com o médico obstetra que fará o parto e certifique-se de que uma cópia assinada seja anexada ao seu prontuário na maternidade.
Perguntas frequentes
Como saber se recebi o ponto do marido no meu parto?
Se você sente dor intensa, repuxamento ou ardência na cicatriz do períneo durante as relações sexuais ou mesmo ao sentar-se meses após o parto, isso pode ser um sinal de sutura excessiva. O diagnóstico deve ser feito por um ginecologista, que avaliará a anatomia da cicatriz.
O que fazer caso eu tenha sido vítima dessa prática?
O primeiro passo é cuidar da sua saúde física buscando avaliação de um ginecologista ou fisioterapeuta pélvico. Do ponto de vista legal, você pode denunciar a equipe médica ao conselho profissional da categoria (CRM ou Coren) e registrar uma queixa por violência obstétrica na ouvidoria do hospital.
A episiotomia é sempre considerada violência obstétrica?
Não. A episiotomia em si é um procedimento cirúrgico que pode ser necessário em situações de emergência específicas para preservar a saúde do bebê ou da mãe. Ela se torna violência quando feita de forma rotineira, sem justificativa médica real ou sem o consentimento da parturiente.
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