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Instinto materno existe? Descubra o que a ciência e a psicologia dizem

29 de agosto de 2026 5 min de leitura Por Grão de Gente

Afinal, o instinto materno existe?

Desde o momento em que uma mulher descobre a gravidez, uma enxurrada de expectativas sociais é despejada sobre seus ombros. A sociedade costuma propagar a ideia de que, assim que o bebê nasce, um botão mágico é acionado na mente da mulher, transformando-a instantaneamente em uma cuidadora perfeita, paciente e sabichona. Mas será que o instinto materno existe mesmo ou essa ideia é uma romantização que gera culpa e frustração?

Para nós, da equipe editorial da Grão de Gente, que acompanhamos a rotina e os desafios reais de milhares de famílias há mais de 12 anos, a resposta para essa pergunta traz um alívio necessário. A ciência e a psicologia moderna mostram que o amor de mãe e a habilidade de cuidar não nascem prontos: eles são construídos no dia a dia, com paciência, apoio e muita prática.

O que a ciência diz sobre o instinto materno?

A ideia de que a mulher nasce com um chip programado para a maternidade começou a ser questionada por cientistas, historiadores e antropólogos. Um dos maiores nomes nesse debate é a antropóloga Sarah Hrdy, da Universidade da Califórnia. Suas pesquisas indicam que a evolução humana não nos dotou com um instinto materno infalível e místico, como a sociedade costuma pregar.

O que as mulheres possuem, na verdade, é uma predisposição biológica para o cuidado, impulsionada por hormônios como a ocitocina (o hormônio do amor e do vínculo) e a prolactina. No entanto, essa resposta hormonal não é exclusiva das mães biológicas. Pais adotivos, parceiros e cuidadores que passam muito tempo com o bebê também apresentam alterações hormonais e neurológicas que favorecem o cuidado. Ou seja, a capacidade de proteger e amar um bebê é uma característica humana de sobrevivência, não um superpoder feminino inato.

A perspectiva histórica: o amor como construção

Para compreender como a ideia do instinto materno foi criada, a filósofa e historiadora francesa Elisabeth Badinter escreveu uma obra clássica chamada "Um amor conquistado: O mito do amor materno". Ela demonstra que a forma como enxergamos a maternidade hoje é recente.

Durante o século XIX, por exemplo, era um hábito comum entre as mulheres nobres e da classe média europeia entregar seus bebês recém-nascidos para amas de leite no campo. Essas crianças eram criadas longe dos pais biológicos por anos e, muitas vezes, a taxa de sobrevivência era baixa sem que isso causasse o clamor social que causaria hoje. Isso prova que o comportamento materno muda de acordo com a cultura, a época e as condições socioeconômicas.

O amor de mãe não é um impulso puramente biológico e imutável. Ele é um sentimento humano e, como todo sentimento, é construído, tem altos e baixos, e se desenvolve na convivência.

A idealização da mãe perfeita e a carga mental

A crença cega no instinto materno pode ser prejudicial. Quando uma mãe recém-nascida se vê exausta, sem saber decifrar o choro do bebê ou sentindo dificuldades para amamentar, a primeira reação costuma ser a culpa. Ela pensa: "Se o instinto materno existe, por que eu não sei o que fazer?" ou "Por que não me sinto feliz o tempo todo?".

A verdade é que ninguém nasce sabendo ser mãe. Cuidar de um recém-nascido exige aprendizado prático. É perfeitamente normal não entender o choro do bebê nos primeiros dias, sentir medo de dar o banho ou achar a rotina exaustiva. O vínculo se estabelece aos poucos, enquanto você arruma o berço com um lençol macio, nina o pequeno no colo ou ajeita a almofada quarto de bebê para encontrar uma posição confortável de amamentação.

De acordo com recomendações de órgãos de saúde mental, a sobrecarga e a falta de uma rede de apoio são as principais causas de estresse no pós-parto. A maternidade real não precisa ser solitária e nem baseada em intuições mágicas.

Como construir o vínculo com o bebê sem cobranças

Se o instinto materno não é um passe de mágica, como o vínculo se fortalece? A resposta está na convivência e no autocuidado:

  • Tempo de qualidade e toque: O contato pele a pele nos primeiros meses ajuda a regular a temperatura do bebê, acalma os batimentos cardíacos e estimula a liberação de ocitocina na mãe e no filho.
  • Criação de rotina: Organizar o ambiente do bebê traz segurança para os pais. Preparar o quarto com um kit berço acolhedor e um edredom confortável ajuda a criar um espaço de transição suave do útero para o mundo externo.
  • Aceitação de ajuda: Dividir as tarefas domésticas e os cuidados com o bebê é essencial. O pai, companheiro ou familiares também são plenamente capazes de cuidar, dar banho e ninar.

Em caso de sentimentos persistentes de tristeza profunda, apatia ou rejeição ao bebê após o parto, a orientação é sempre procurar o pediatra do bebê ou o seu obstetra para receber o suporte adequado e descartar quadros de depressão pós-parto.

Perguntas frequentes

Se o instinto materno não existe, por que algumas mães parecem saber tudo?

O que parece instinto é, na verdade, observação diária e convivência. A mãe passa muito tempo com o bebê, aprendendo a notar pequenos sinais físicos, padrões de choro e reações, o que gera uma sensação de adivinhação rápida.

É normal não sentir amor pelo bebê logo após o parto?

Sim, é extremamente comum. O parto é um processo físico e hormonal exaustivo. O amor é uma construção afetiva que se consolida com a convivência, o toque e o cuidado diário nos primeiros meses de vida.

Os pais também desenvolvem essa sensibilidade com o bebê?

Com certeza. A neurociência comprova que homens e parceiros que participam ativamente dos cuidados diários com o recém-nascido passam por alterações cerebrais e hormonais semelhantes às da mãe, aumentando a empatia e a conexão com o filho.

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